domingo, 1 de maio de 2011

Diferença entre tintas industriais e artesanais.


 Olá amigos,

Quando encontro nas minhas pesquisas, assuntos interessantes e com ótimo embasamento teórico e técnico, fico cheia de alegria, pois sei que estarei oferecendo a vocês uma informação de qualidade e confiabilidade.
 Eu estou procurando há algum tempo uma apostila entitulada: Cozinha da Pintura. Desenvolvida pelo prof. Aurélio Cardoso Nery em 1994.     Já encontrei referências dela em outras apostilas, também desenvolvidas por professores. 
Mas hoje, tive a felicidade de encontrar um blog chamado: "Cozinha da Pintura".  
Tentei identificar o nome do desenvolvedor desse blog, mas não aparece em nenhum lugar. Cita apenas: 
(Bacharel em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, segue carreira acadêmica com ênfase na pesquisa sobre a expressividade e a história dos materiais de pintura contemporâneos e da antiguidade. Consultoria, soluções e desenvolvimento de materiais artísticos e restauração de pinturas.)


Portanto, não tenho como saber se é o mesmo idealizador da referida apostila.  Mas, olhando os temas do blog, fiquei encantada!  Muita informação interessante, em textos muito bem escritos mesmo!!!.  
 
Não deixem de visitar!!!


Espero que gostem e que aproveitem no dia a dia das artes.
 Fonte:  
http://cozinhadapintura.blogspot.com



O texto abaixo, é uma amostra da qualidade de informação que encontrarão no referido blog.

Com o carinho de sempre!
Lilian

Diferenças entre Tintas Industriais e Artesanais.
Tanto as tintas industriais, quanto as tintas artesanais possuem vantagens e desvantagens, e inquestionavelmente, são produtos diferentes. Talvez, aos olhos do pintor iniciante ou inexperiente, essas diferenças sejam imperceptíveis, mas conforme se adquire o hábito de se usar um determinado material, a experiência é sempre a mesma com todos os artistas: se trocamos a marca ou o tipo do material usado, percebemos que algo está diferente. Quando o artista se torna muito experiente, as diferenças que antes eram imperceptíveis, tornam-se as vezes, esmagadoras. Com isso em mente, escrevi esse pequeno artigo, para analisarmos mais detalhadamente quais são essas diferenças e por que é importante entendê-las.
Tinta Artesanal: Materiais para a fatura

Pigmentação e Pastosidade
Uma das diferenças é o uso de adulterantes pela indústria. O estearato de alumínio e o hidrato de alumínia possuem várias funções na produção dessas tintas. Servem para que o pigmento não separe do veículo, prolongando o tempo de estocagem, e para garantir uma pastosidade semelhante a todas as cores. Sua adição em grande quantidade também serve para baratear o custo da tinta, pois esses produtos substituem o pigmento no volume total da tinta, resultando numa pasta que embora possua corpo adequado, possuí menor quantidade de pigmento, retirando o poder de cobertura e adquirindo uma consistência cremosa muito característica. 1 As tintas artesanais são feitas, geralmente, somente com pigmento e veículo, os adulterantes são opcionais e quase nunca usados dentro do ateliê. As vezes, coloca-se pasta de cera branca de abelha, em ínfima quantidade 2, para evitar que o pigmento separe-se do veículo.

A generosidade de pigmento confere propriedades reológicas que mostram consideráveis diferenças daquelas que levam menos pigmentos. No entanto, é importante lembrar que algumas marcas possuem linhas de “estudante” e linhas “profissionais”, a segunda, ofereçem tintas com alta pigmentação, portanto, essa não é uma característica exclusiva da tinta artesanal, mas também não é característica das tintas do tipo “estudante”. 
Tinta Artesanal: Branco de Chumbo
 
A textura diferenciada entre industrial e artesanal se deve principalmente pelo uso do óleo alkalí e adulterantes, que criam uma textura “amanteigada” que não é obtida na tinta artesanal que leva somente pigmento e óleo de linhaça prensado a frio. A tinta artesanal possui uma maneira de “assentar” característica, diferente da cremosidade da tinta industrial, cria efeitos . É possível também, alcançar essa “cremosidade” da tinta industrial na fatura da tinta artesanal, dentro do ateliê, através do uso do óleo de linhaça alkalí e talvez a necessidade de alguns adulterantes, embora seja obviamente mais fácil comprá-las prontas.

Vale lembrar que hoje, é possível encontrar marcas de tintas industriais mas que na verdade usam processos praticamente artesanais na fatura dos produtos. Altíssima quantidade de pigmento, pouca quantidade de óleo e nenhuma adição de adulterantes. É o caso da Natural Pigments. No entanto, lembre-se: a falta de adulterantes e do óleo de linhaça alkalí não geram uma tinta “cremosa”. Portanto, vale a pena entender como funciona o processo de fatura de uma marca antes de comprar grandes quantidades. Outras marcas oferecem em suas linhas “profissionais” alto poder de pigmentação, mas usam adulterantes, criando a famosa pastosidade. É importante notar que certas características não sejam lidas como boas ou ruins, como por exemplo, no caso de “cremoso”, essa característica pode ser desejável a um tipo de técnica ou a um artista, mas pode ser totalmente desnecessária ou indesejável a outro. Logo, essas características de consistência dividem as opiniões entre diversos artistas, sendo uma questão de gosto, e as vezes, de hábito.
Michael Harding: Tinta industrial
com qualidades da tinta artesanal

Quantidade de Veículo
Quando optamos por fazer nossa própria tinta, as proporções de óleo/pigmento sempre são preferencialmente calculadas e reguladas para que nunca haja mais óleo do que o necessário. O excesso de veículo torna a tinta muito oleosa, e quando a mesma seca, corre o risco de ficar mais escura e amarela do que a tinta com menos óleo. 
As pinturas dos irmãos Van Eyck, Rubens, Rembrandt, Velasquez e outros continuam claras e luminosas. 3

É compreensível que as pinturas feitas pelos grandes mestres estejam em excelente estado de conservação, não somente pela forma como foram pintadas, mas também pela proporção óleo/pigmento, gerando uma tinta com menos risco de amarelar, conservando as cores menos suscetíveis a mudanças pela baixa quantidade de óleo. Outra vantagem da tinta artesanal é a opção de usar outros óleos, como o óleo de nozes, papoula ou cártamo, opções que raramente são encontradas em tintas industriais.

Qualidade do Veículo
Existem alguns óleos vegetais que podem ser usados na fatura da tinta óleo. O mais usado, é o óleo de linhaça. Ele é feito a partir da prensagem, ou, moagem da semente da linhaça. Dois processos diferentes podem ser usados: a extração á frio e a extração a calor, sendo a segunda, um processo bem mais recente do que o primeiro, que vem desde a idade média. Entre os pintores, discute-se qual é a melhor opção entre os dois tipos de extração. 
O óleo prensado a frio é, de longe, o melhor óleo para moagem dos pigmentos, e possui muitas vantagens. Possui um teor de acidez alto, que atribui características desejáveis. Primeiramente, tem cor mais estável, sendo particularmente mais estável nesse aspecto. Também produz um filme mais elástico e durável. Quando usado para moer pigmentos tem um poder de absorção superior. Deve ser a primeira opção como óleo de moagem nos ateliês. Existe um benefício econômico gigantesco para o produtor de óleo em manter o mundo usando seu óleo refinado a calor. Pelo uso do calor na extração, uma porção muito maior de óleo é obtido, sendo esse processo o padrão da indústria desde o séc. 19. Os produtores dizem ser um óleo superior ao prensado a frio, no entanto, seu processo de feitio é voltado a grande viabilidade econômica, fácil industrialização e outros parâmetros que os artistas não julgam tão importantes. O óleo refinado Alkali deve ser considerado como uma segunda opção, para ser usado quando não houver óleo prensado a frio disponível. 4
O uso de pressão e vapor é necessário para assegurar os resultados mais econômicos, mas a qualidade do óleo assim produzido é definitivamente muito inferior ao do que é extraído pela prensagem a frio, sem vapor, especialmente do ponto de vista do artista... ... e apesar de qualquer refino posterior ao qual o óleo seja submetido ele é mais frágil, e as películas quando secas tornam-se mais quebradiças do que a do óleo prensado a frio... ... os produtores de óleo forneciam aos fabricantes de materiais artísticos, como substitutos, óleos claros refinados a álcali, alegando que estes eram superiores em uniformidade e propriedades gerais ao óleo prensado a frio. 5
Esq.: Alkalí; Dir.: Prensado a Frio
Entre os artistas e acadêmicos, notamos uma grande preferência pelo óleo produzido a partir da extração a frio, e uma grande relutância ao uso do óleo refinado:
O óleo de linhaça prensado a frio é o melhor para os propósitos artísticos... é raramente prensado a frio, pois esse é o método que resulta numa mínima quantidade de óleo. 6
O óleo refinado prensado a calor (alkali ou álcali) é um produto moderno que possui inúmeros defeitos, e não possui as qualidades superiores do óleo prensado a frio... o processo industrial de refinamento usando calor, para remover o óleo das sementes em quantidade máxima, é motivado pelo lucro econômico... 7


George O´Hanlon, produtor de vários produtos artísticos, entre eles o óleo de linhaça refinado prensado a calor, químico especialista em materiais artísticos históricos, e diretor da Natural Pigments 8 é da seguinte opinião:
Os manuais antigos recomendam o óleo prensado a frio por que ele é melhor para dispersar pigmentos, pois absorvem o óleo mais facilmente e com mais rapidez. Esse era o único óleo disponível antes do séc.20. Ele é melhor para moer pigmentos pois contem mais ácidos graxos livres, dando maior índice de acidez. A desvantagem no uso do óleo prensado a frio é sua cor muito escura e impurezas, que levam a um maior amarelecimento. No começo do séc.20, os produtores de óleo desenvolveram métodos de refinar óleos vegetais que resultam num óleo que contém o melhor de ambos: alto índice de acidez juntamente com um refinamento de pouca ou nenhuma impureza. 9

Dentre os principais pontos, a cor do óleo, é assunto polêmico. Os produtores de óleo dizem que a cor mais clara do óleo refinado prensado a calor é prova de um produto melhor. No entanto, os artistas clamam que esse óleo claro, escurece com o tempo. 
Uma regra que deve ser levada em conta, é a de que as variações de óleos mais claras vão escurecer mais com o passar do tempo, enquanto que os óleos mais escuros (como o prensado a frio) mudarão menos. Então o resultado, no fim, é similar. 10


Segundo Eastlake, o escurecimento, ou amarelecimento do óleo ocorrerá, inevitavelmente, em todos os tipos de óleos de linhaça. Sendo isso inevitável, o problema não seria então sua coloração, e sim, se passou por algum processo de clarificação: se ele foi alterado. Para o autor, os processos de clarificação usados no óleo trazem para as cores um falso juízo de claridade ou pureza. Se o óleo fora clarificado por qualquer tipo de processo, e inevitavelmente voltará a escurecer, isso fará o artista obter cores claras durante sua pintura, mas que somente depois, irão escurecer. Como solução, Eastlake propõem que o óleo deve ser usado em seu estado natural, sem clarificá-lo, pois dessa maneira, o artista pode compensar sua carregada cor amarela enquanto ainda estiver pintando, colocando mais tinta, ou adicionando cores que compensem o amarelo, evitando surpresas futuras. Isto é, não importa a cor do óleo, contanto que o artista leve em consideração sua cor, e compense isso em suas misturas de cores.
Teste de Amarelamento

...sendo a descoloração (amarelecimento) dos óleos inevitável, é melhor usá-los desde o início já em seu estado de cor que alcançarão. 11


Na correspondência entre Rubens e Peiresc, carta datada de 1629, encontra-se a mesma informação, transcrita através do próprio punho do pintor:
Se meu retrato não parecer tão bom como quando foi acabado, o melhor remédio seria expô-lo ao sol e o excesso de óleo que causa essa mudança seria destruído. Se tornar a escurecer, repetir este processo que é o único remédio. 12


Em verdade, o óleo não é destruído pelo sol. Uma de suas características é tornar-se mais claro á luz. 13
Outro ponto a ser considerado é o tempo de secagem:
...Mais importante que a cor, é a grande diferença entre suas habilidades secantes: o óleo refinado prensado a calor seca de maneira excepcionalmente lenta, causando a necessidade do uso de secantes e solventes. 14


A discussão sobre qual método de extração, e qual o óleo é o óleo mais indicado possui uma extensa lista de opiniões e estudos que estão longe de uma conclusão. Nossos experimentos mostraram que as diferenças de cor e secagem, entre óleos modernos prensados a frio e óleo alkalí de qualidade não apresentam muitas diferenças. No entanto, o comportamenteo reológico das tintas feitas a partir desses óleos, mostrou que o óleo alkalí refinado e prensado a calor consegue ser absorvido mais facilmente pelos pigmentos, e gerar a costumeira “cremosidade” das tintas industriais, enquanto o óleo prensado a frio tem maior dificuldade para ser absorvido e não gera um óleo “cremoso”.

Estamos fazendo novas investigações e experimentos, no sentido de entender processos caseiros de refinamento do óleo alkalí e do óleo prensado a frio, e então estudar como esses óleos modificados vão se comportar na fatura de tintas a óleo.
Esq.: Óleo Lavado; Dir.: Alkalí

Processamento
Outra importante diferença, é a dispersão do pigmento no óleo, ou, a maneira como a tinta é processada, os métodos de ação sobre as substâncias que formarão a tinta. Quando usamos uma pequena ferramenta para espalhar manualmente o pigmento com o veículo, temos um resultado totalmente diferente de quando usamos grandes máquinas e rolos de aço que mecanicamente preparam a tinta. Certamente o resultado de uma máquina foi projetado para aproveitar ao máximo a matéria prima de maneira que produza resultados econômicos e sempre iguais, garantindo uma padronização para o produto, enquanto o procedimento dentro do ateliê é mais difícil de ser controlado, padronizado e de evitar gastos desnecessários. Todos esses fatores, produzem tintas consideravelmente diferentes em sua pastosidade e comportamento.
Dispersão: Uso da moleta

Tamanho de Partícula do Pigmento
Geralmente, a indústria mói os pigmentos de maneira a pulverizá-los para que não estraguem o maquinário, gerando partículas muito finas. O pigmento quanto mais fino, possui mais facilidade de absorção de óleo. É impossível alcançar o mesmo grau de pulverizaçã das máquinas quando usamos somente a moleta no ateliê. A moleta na verdade é usada para dispersão, e não para a moagem do pigmento. Quando usamos essa ferramenta, estamos espalhando o pigmento e não deixando-o mais fino. Portanto, quando compramos um pigmento pronto, dificilmente iremos conseguir deixá-lo mais fino. Portanto, a tinta artesanal costuma ter maiores partículas de pigmento. Isso não é necessariamente ruim, como já havíamos visto antes. 

Alguns pigmentos, em alguns casos de aplicação, ou em algumas preferências de consistência para tintas, só atingem uma densidade e comportamento específicos quando encontrados com partículas grandes. Existem muitas histórias sobre o azul ultramar usado por Vermeer, que teoricamente, era feito a partir de pedras esmagadas de lápis-lázuli, mas não muito moídas, pois as partículas grandes tornavam sua tinta azul na consistência e efeito ótico que o artista desejava. 



BIBLIOGRAFIA
1 MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970. Pg. 199.
2 Receitas sugerem que cerca de 2% sejam suficientes.
3 MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976. p. 72.
4 Texto de Tony Johansen, artista e produtor de tintas artesanais. www.paintmaking.com.
5 MAYER; Ralph; Manual do Artista; Martins Fontes; 1950; 1957 e 1970. p. 183.
6 DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921; p. 100.
7 VELÁSQUEZ; R. Louis; Oil Painting with Calcite Sun Oil: Safety and Permanence without Hazardous Solvents, Resins, Varnishes, and Driers; 2003; Califórnia; EUA. p. 13.
8 Empresa norte-americana que produz e comercializa pigmentos históricos e raros. 
9 Texto obtido através de correspondência com George O´Hanlon; 2008.
10 Texto de Tony Johansen, artista e produtor de tintas artesanais. www.paintmaking.com.
11 EASTLAKE; Sir Charles Lock; Methods and Materials of Painting of the Great Schools and Masters; Dover; 1847; p.322.
12 DOERNER; Max; The Materials of the Artist and Their Use in Painting; 1921; p. 249.
13 MOTTA, Edson; SALGADO, Maria; Iniciação a Pintura; Editora Nova Fronteira; 1976. p. 67.
14 VELÁSQUEZ; R. Louis; Oil Painting with Calcite Sun Oil: Safety and Permanence without Hazardous Solvents, Resins, Varnishes, and Driers; 2003; Califórnia; EUA. p. 13.

Um comentário:

  1. Olá Lílian! Agradeço a divulgação de meu artigo e fico contente que esteja disposta a divulgar entre nossos colegas! Respondi a seu cometário no Cozinha, e agradeço ter reservado um tempo para escrever.

    O artigo no entanto não tem qualquer relação com a apostila do Profº. Nery que menciona no seu post. E foi escrito por mim, Marcio Guilarducci. Nunca quis assinar meu nome embaixo dos artigos, e a idéia inicial sempre fora usar o nome do Blog mesmo (Cozinha da Pintura), pois achei que assinar os artigos poderia ser muito arrogante de minha parte. Meu intuito não é lucrar com o Blog, apesar de divulgar os esporádicos workshops que organizo, mas o principal intuito é divulgar informação de qualidade, gratuitamente. Tenho no entanto notado que as pessoas precisam de um nome. Penso que isso será no fim, inevitável...

    Parabéns pelo seu Blog, que tem muita informação a ser aproveitada! Um abraço!

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