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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O valor da arte contemporânea.



Este excelente texto é de:

Paula Mastroberti

Li, em 1996, um livro cujo teor reacionário, apesar de generalizar e salientar apenas os aspectos negativos da arte pós-moderna, idealizando as expressões artísticas que lhe precedem, ainda assim oferece uma pertinente e corajosa reflexão sobre os bastidores do meio artístico em suas diferentes instâncias. Cultura ou Lixo (1996, Civilização Brasileira, 256 págs.), de James Gardner, com tradução de Fausto Wolff.

Afinal, ele desnuda muito da arbitrariedade desmedida, da hipocrisia e do jogo de vaidades que regem este mundinho maluco do qual muitos artistas são, consciente ou inconscientemente, cúmplices.

As denúncias de James Gardner sobre a mediocridade mal-disfarçada que há por trás de certas expressões artísticas dos últimos vinte anos, apesar de amargas, foram úteis na compreensão de como qualquer juízo de valor, desde que Foucault e sua tribo gritaram aos quatro ventos o fim das ideologias totalitárias, havia se tornado precário, dependente de critérios e interesses subjetivos. O que, no caso da arte, significa dizer: depende da maneira como ela é experienciada, do grau de seriedade e de responsabilidade com todos os envolvidos se posicionam, para que uma obra de arte mereça ser denominada como tal.

Não que o objeto-arte não tenha valor em si mesmo. Eu acredito que sim, que ele pode conter e agregar sobre si informações importantes, cuja leitura sempre rica apenas variará conforme a época ou do contexto em que for analisado. Algumas obras (e, por favor, quero incluir qualquer forma de expressão humana, literatura, música, etc.) certamente preencherão requisitos para uma leitura mais perene e
universal do que outras.

Paradoxalmente, parece que toda vez que insistimos em determinar regras para estes valores, ou toda vez que um artista pensa ter inventado uma fórmula que conduza uma obra a este patamar, a coisa não funciona e se banaliza.

Há sempre certa polêmica envolvida no que se refere ao valor da arte – principalmente da arte contemporânea. Tanto quanto a polêmica (esta mais danada) sobre o que ela significa e qual a sua função. Há sempre tentativas absurdas de reduzir a arte a um mero objeto utilitário e, como tal, sujeito às regras capitalistas que abarcam qualquer produto criado para ser consumido. Ou ainda, tentativas no sentido contrário: a verdadeira arte não pode ser útil e não se consome – ponto final. Fica a questão: A arte tem valor de consumo? Ou não?

Ante esta provocação difícil, cuja resposta requereria que citássemos uma penca de filósofos dedicados ao assunto, eu gostaria de começar pelo princípio do fenômeno e sua fonte, ou seja, pelo próprio homem, que é quem a produz e para a qual ela se volta. Pois a diferença está aí. Na fonte. Na verdade, o modo como se consome, circula ou se gerencia o objeto-arte pouco tem a ver com o sentido de valorizá-lo enquanto arte-autêntica (notem que eu liguei por um hífen as duas palavras). A autenticidade já nasce agregada ao próprio processo criativo do artista. Ou, como pretendo dizer: ela já nasce arte-autêntica – ou embuste, trapaça, picaretagem, chamem como quiserem – lá no estúdio, em seu protótipo, antes de concluída.

Se o artista realmente comprometido com seu labor falha, ou é bem sucedido, ele o saberá imediatamente – esta que é a verdade. O resto, marchands, curadores, críticos (e os há?), vão contribuir apenas com um glacê que pode encobrir um bolo ruim ou muito gostoso.

O mercado de arte tem suas modas, é bom que se diga. Quando eu comecei, a pintura estava em alta, principalmente a pintura-pastiche, ou neo-expressionista, como a dos alemães. Hoje a moda é outra, a pintura aparentemente caiu, outros materiais e linguagens subiram, mas nada disso determina o que é bom ou ruim de fato. Tanto em termos de investimento quanto de valor estético ou poético.

Quem segue modismos geralmente é quem não entende nada, e obedece direitinho às orientações do arquiteto (bem comissionado por um galerista) ao decorar a sua fantástica cobertura com peças de última linha pra exibir aos amigos (e quanto mais esfíngicas, maior o impacto). O que não quer dizer que ele acabe comprando uma obra ruim. Quem sabe?

Artistas iniciantes sempre são uma promessa. Que pode não se cumprir. Aposta quem tem olho profético. Ou quem tem menos dinheiro. Artistas já consagrados – bem, aí já temos outra história. Que merece ser contada.

Entende-se por Artistas consagrados aqueles que já têm por aí uns dez anos pra mais de carreira, os que foram aprovados após cumprirem o percurso necessário para sua promoção profissional, a saber: um bom número de mostras individuais em galerias de destaque, seleção em salões institucionais, prêmios de importância reconhecida, alguma bienal (qualquer uma, desde que tenha esta palavra escrita no currículo), quem sabe uma pós-graduação em alguma área de poética visual (com bolsa-residência no exterior), acervo em galerias e museus, catálogo com textos em jargão acadêmico intraduzível etc.

Então o investidor vê todo aquele dossiê e pensa: estou seguro. O marchand garante. O curador abaliza. Até o jornal, que geralmente não dá mais que uma notinha sobre artes plásticas, já fez o cara merecer pelo menos meia-página no caderno de cultura. Ele compra.
Fez uma boa compra? Quem sabe?

Artistas consagrados são certamente seguros, pra quem vê a arte como um objeto de investimento capital. Artistas consagrados têm a garantia da consolidação de suas carreiras. É provável que continuem a aumentar seus currículos, a produzir até o fim de suas vidas coisas boas e às vezes nem tanto (Artistas consagrados também falham, também sucumbem às modas, patinando num mesmo estilo, o que pode desvalorizá-lo no futuro). Entretanto, o sistema assegura, através da palavra de curadores, críticos e marchands, e o investidor arrisca. Simples assim. Como a bolsa de valores, como uma aplicação financeira. E agora chegamos a outra ponta.
A questão é: quando desejamos um objeto de arte, o desejamos com que intenção?
Notaram que eu usei dois vocábulos para definir o interessado em arte? Consumidor e investidor. A princípio, quem compra arte é um ou outro, ou os dois juntos. Há, entretanto, uma diferença sutil entre eles: o consumidor aparentemente compra para decorar a sala de estar; o investidor aparentemente inicia uma coleção para ganhar dinheiro. Nenhum dos dois está errado. Porque a arte não pode ser destinada a enfeitar o espaço residencial ou a ante-sala de um
consultório, afinal de contas? E porque não haveria de ser um bom investimento?
O mercado de arte é um dos mais valorizados no mundo, cujas cifras podem atingir bilhões.

Ambos, consumidor e investidor, compram arte com intenções diversas, porém ambos podem ter ainda uma segunda, mas não menos importante intenção, a do colecionador – o que compra arte pela fruição estética. E é aí que a cobra fuma. Voltando ao nosso princípio:  qualquer obra de arte será tanto mais autêntica e pontual se tiver aplicado sobre si conceitos tanto mais profundos e universais acerca da visão de mundo de quem a cria, e se exprimir estes conceitos através de uma linguagem tanto mais bem elaborada, clara e precisa.
Independente de modismos, do que quer que digam os críticos e os curadores, o sistema e o mercado, esta obra já nasceu carregada de auto-estima pela própria mão do artista profundamente comprometido com as questões do fazer artístico e, se não cair no ostracismo destruidor de um depósito qualquer, é bem possível que brilhe independente de quaisquer previsões ou circunstâncias.

Tudo muito bonito. Mas estamos falando de sistemas, e os sistemas, em nome da consagração de certos padrões, são obrigados a rejeitar outros. Em geral, tudo o que se produz visando cumprir padrões, tende ao superficial e imediato. O colecionador de arte, se está em busca da arte-autêntica ou de uma arte que preencha quesitos mais exigentes, terá, portanto, que estar atento não só ao que o marchand ou curador lhe diz, ou o tamanho do currículo parece provar, mas sobretudo à pessoa do artista – ele deve investigá-lo bem.

Todo aquele que se pretende um ‘connaisseur’ deve educar-se e ao seu olhar (e quanto mais cedo começar, melhor). Intuição vale mais do que a razão, na maioria dos casos. Mas esta intuição só vale se instruída pela educação e a convivência com o meio.

Afinal, a arte-autêntica está também presente no mercado de arte (e porque não estaria? Há mercadoria para todas as necessidades e gostos.). Seu canto de sereia, contudo, é mais sutil, complexo, e requer uma atitude contemplativa demorada, perscrutadora. Às vezes pode ser levada para casa, às vezes terá efeito temporário ou volátil, só podendo ser apreciada no local onde se instalou.

O que se quer dizer aqui é que não se pode esperar que o sistema de arte determine o valor absoluto de uma obra, seja ela pintura, instalação, ou um site-specific. O sistema está estruturado sobre padrões estéticos transitórios (circunstanciado pela axiologia do momento), interesses mercadológicos e é em nome destes valores que julga o que é arte ou o que não é. Exigir que o mercado de arte atue de forma puritana e idealista é um absurdo tão grande quanto querer o mesmo do supermercado onde você faz as compras ou mesmo do editorial ou do fonográfico, que, em sua maioria, também vende e consagra enorme quantidade de lixo.

Como um bom livro, ou uma boa música, que recebe maior ou menor aclamação mediante nossa sensibilidade e preparo intelectual, assim também é com a obra de arte. Feliz ou infelizmente, meu caro leitor, cabe exclusivamente a você, consumidor, investidor ou colecionador, visitante ocasional de museus e galerias, exercitar-se o máximo possível a fim de não se sujeitar ingenuamente ao que querem lhe impor.

Neste momento, a escala de valores mais importantes é a sua, e é com base nela que você deve ir atrás do que deseja. Boa sorte.



©® 2006 Paula Mastroberti, artista plástica e escritora
www.mastroberti.art.br

domingo, 31 de julho de 2011

A obra de arte deve ser exaltante.


ARNALDO JABOR - O Estado de S.Paulo
21 de dezembro de 2010 | 0h 00

Ao apagar das luzes, fui ver a Bienal. Quase não escrevo sobre ela, mas não aguentei, apesar de não ser crítico de arte. A sensação dominante que tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Saí triste. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser "arte", vergonha de provocar sentimentos de prazer. A fruição poética é impedida, como se o prazer fosse uma coisa reacionária, "alienada", ignorando o "mal do mundo", que tem de ser esfregado na cara do espectador para que ele não esqueça o horror que nos assola.
Há um propósito de evitar qualquer transcendência artística. Um crítico escreveu: "O paradigma romântico foi desmantelado no século 20, porque apresenta a arte como algo universal, acima da realidade social e política."
Ou seja, a razão maior da arte, que é justamente esse mistério que aponta para "as coisas vagas" (como escreveu Paul Valéry) sem as quais não há reflexão poética ou filosófica, foi jogada fora, em nome de uma racionalização criada para substituir nossa impotência política real.
Fui andando pelo pavilhão maravilhoso do Niemeyer, pensando que o edifício "modernista" era superior a qualquer panfletinho ali exposto.
Pensei que o império da sordidez mercantil, a ignorância no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade cultural, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além do alcance crítico de qualquer "denúncia" artística. Não adianta mais "chocar" ou "conscientizar" ninguém. Nada que haja na Bienal nos choca mais que homens-bomba explodindo discotecas ou a fome na África ou a lama das favelas e periferias. Nada. Os gestos enraivecidos da antiarte nem arranham a pele do mundo. Nesta Bienal vi um parque temático de deprimidos, um muro de lamentações inúteis - a melancolia como "denúncia" de uma vida sem solução, quando a grande crítica ao Ocidente é feita pelos terroristas islâmicos. A infeliz sentença de Stockhausen chamando o 11 de Setembro de "obra de arte" tem, sim, um bruto fundo de verdade. Nada pode explicar ou evitar aquele horror. Nunca imaginávamos que o século 21 seria parecido com o século 7.º, quando Maomé se declarou o único profeta.
Intelectuais e artistas vivem em pânico, pois o tempo de sínteses se extinguiu. Os acontecimentos estão incompreensíveis e, no entanto, óbvios demais. Claro que os artistas contemporâneos não podem ignorar o horror do mundo e têm de acusar o golpe. Sim, mas mesmo em tempos terríveis, há que se buscar alguma transcendência, esperança e vitalidade.
Tropeçando em perigosas "instalações", pensei que a morte da "aura" da arte é menos aceita do que pensávamos. Hoje, muitos artistas se veem como ex-profetas abandonados e passaram a usar a luz da "aura" como um halo, como uma coroa de espinhos para sua solidão. O artista quer virar obra de arte. E tudo faz para esquecer seu abandono, mesmo que seja expor seus excrementos numa latinha. E vemos que ele não abriu mão da representação, mas cultiva-a ao avesso da beleza, como uma doença favorita. Ele é a representação, ele é a paisagem.
Acho que nesta desistência da arte transcendental há um complexo de inferioridade diante da tecnociência, que está avassalando nossas vidas. Nietzsche não concordaria: "A arte é mais poderosa que a Ciência, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final do conhecimento é o aniquilamento." Nietzsche escreveu isso no fim do século passado, querendo dizer que, por trás da busca científica e racional da verdade, mora o desejo da morte, de esgotamento da vida, por uma letal explicação de tudo.
Claro que não tenho nível para aprofundar este tema; mas temos hoje esta metástase digital hipertecnológica ao lado de um indigente, tuberculoso, desempenho artístico do mundo. Temos de um lado o mercantilismo escroto de Hollywood, dos teatrões, das galerias chiques ou dos best-sellers. Do outro, a solidão melancólica das Documentas, os bodões negros dos guetos da revolta "oficial".
Sem dúvida, a grandeza da arte contemporânea é de se misturar à vida, sem suporte, mas sem negá-la de fora, atacando-a com rancor por sua falta de sentido claro. Nisso, o WikiLeaks mata a pau.
Movidos pela idéia socrática de que a arte tem de ser subordinada à Razão, os artistas caíram numa denúncia melancólica das impossibilidades. Não há futuro para esta idéia de arte, seja ela digital, mercantil, iluminista ou o cacete a quatro. A celebração dionisíaca do existir não pode ser considerada frescura ou alienação.
Prevaleceu a vertente "triste" do modernismo, a vertente "conceitual" que joga sobre o "mal do mundo" apenas uma ideologia nevoenta de condenações sem nome, apenas uma arte enojada contra o mal-estar da civilização.
Por que a melancolia seria mais profunda que a alegria? Como explicar Fred Astaire, Busby Berkeley, Cantando na Chuva, a arte pop, o jazz? Depois do pop, será que uma "aids conceitual" não atacou tudo, depauperando a luta? Será que não se esgotou a denúncia do feio pelo "mais feio", que odeia a vida real, por adesão a um impossível finalismo? O "novo" não poderia ser um "belo" que denuncia, com sua luz, a injusta vida?
Precisamos de arte, como uvas e frutos e danças e como um coro de Silenos, de Dionísios, pois a ciência e a razão estão querendo chegar até os ossos da "essência". A arte é a ilusão aceita, a clareza feliz de que a aparência é o lugar do humano e que só nos resta essa hipótese de felicidade num planeta gelado. Não a arte-espetáculo, mercadoria de ver, mas a arte como ritual de embelezamento da vida. Nietzsche: "A ilusão é a essência em que o homem se criou."
Lembrei-me então de uma frase de Stravinski: "A obra de arte deve ser exaltante." E uma de Artaud: "A arte não é a imitação da vida; a vida é que é a imitação de "algo" transcendental com que a arte nos põe em contato." Por isso, não gostei da Bienal.